Car(i)ne
quase carne
não me oprime
você me exime
dos males da mente
e é como um cine
um outro mundo
pro bem do meu corpo
você é o escopo
do meu planeta
quando se achega
quando me tenta
você, suas tetas
e o seu tesouro
no meio do ouro
das suas pernas
me perco nelas
me perco ali
ou ali me acho
a cara no tacho
com nariz e tudo
enfio tudo
não faço charme
pro teu alcance
tô no teu lance
eu te devoro
eu só imploro
que não me esqueças
mas que adormeças
no meu cafôfo
Car(i)ne
quase carne
o meu alarme
é a tua vinda
é a tua vida
e se não estás
ou se não me chamas
a minha saída
será um drama
insustentável
de se viver
Maricá, 13/07/2008
Aluízio Rezende
domingo, 13 de julho de 2008
frustração
olhei sério
pra mim de manhã
não estava atrás de rugas
ou de saber quem eu era
era só uma paquera
e o espelho, eu sei,
não gostou!
Rio, 10/07/2008
Aluízio Rezende
pra mim de manhã
não estava atrás de rugas
ou de saber quem eu era
era só uma paquera
e o espelho, eu sei,
não gostou!
Rio, 10/07/2008
Aluízio Rezende
bakul
atrás do barco azul
a praia deserta fugindo
seguindo o barco azul
as costinhas dos peixes
refletindo
dentro do barco azul
o pescador calado,
a sereia sorrindo
colado ao barco azul
o adesivo com o nome:
bakul, o bêbado de sonhos
por sobre o barco azul
o sol conversando
com as nuvens
por trás do barco azul,
jogado lá na areia,
duas meninas contando
suas conchinhas e sonhos...
Rio, 13/07/2008
Aluízio Rezende
a praia deserta fugindo
seguindo o barco azul
as costinhas dos peixes
refletindo
dentro do barco azul
o pescador calado,
a sereia sorrindo
colado ao barco azul
o adesivo com o nome:
bakul, o bêbado de sonhos
por sobre o barco azul
o sol conversando
com as nuvens
por trás do barco azul,
jogado lá na areia,
duas meninas contando
suas conchinhas e sonhos...
Rio, 13/07/2008
Aluízio Rezende
quarta-feira, 2 de julho de 2008
A V C
eu sei que a ânsia e o medo
me vêm quando acordo bem cedo
por falta daquele chamego
que eu tinha e também do aconchego
que sempre me deu alegria
do início até o fim do dia
o apoio e a segurança
além de uma grande esperança
de tê-la pra sempre comigo
e assim me afastar do castigo
de ter que acordar e não vê-la
e só me restar a estrela
que fosse escutar meu lamento
e ver todo o meu sofrimento
pois sem você falta o sono
e acordo em pleno abandono
bem antes de quando devia
e nem mesmo a Ave-Maria
que rezo pra mim é ajuda
é claro que é um Deus-nos-acuda
estou perto de um A V C
o médico veio dizer
talvez apnéia severa
não sei o que vem ou me espera
você sei que é minha cura
por isso ando à sua procura
talvez você venha com o vento
é esse o meu único alento
eu deixo a janela aberta
e escondo-me sob a coberta
talvez você venha com o sol
e queira trocar o lençol
e toda a roupa de cama
quem sabe se ainda me ama
quem sabe se ainda me quer
você certamente é a mulher
que nunca devia ter ido
me encontro assustado e perdido
porém jamais vou lhe dizer
que devo tudo isso A VC
Rio, 08/11/2007
Aluízio Rezende
me vêm quando acordo bem cedo
por falta daquele chamego
que eu tinha e também do aconchego
que sempre me deu alegria
do início até o fim do dia
o apoio e a segurança
além de uma grande esperança
de tê-la pra sempre comigo
e assim me afastar do castigo
de ter que acordar e não vê-la
e só me restar a estrela
que fosse escutar meu lamento
e ver todo o meu sofrimento
pois sem você falta o sono
e acordo em pleno abandono
bem antes de quando devia
e nem mesmo a Ave-Maria
que rezo pra mim é ajuda
é claro que é um Deus-nos-acuda
estou perto de um A V C
o médico veio dizer
talvez apnéia severa
não sei o que vem ou me espera
você sei que é minha cura
por isso ando à sua procura
talvez você venha com o vento
é esse o meu único alento
eu deixo a janela aberta
e escondo-me sob a coberta
talvez você venha com o sol
e queira trocar o lençol
e toda a roupa de cama
quem sabe se ainda me ama
quem sabe se ainda me quer
você certamente é a mulher
que nunca devia ter ido
me encontro assustado e perdido
porém jamais vou lhe dizer
que devo tudo isso A VC
Rio, 08/11/2007
Aluízio Rezende
Dia de Concreto e de Borracha
Senti uma dor de barriga desgraçada. Estava no carro, nervoso, queria chegar logo onde tinha que chegar, mas não sabia aonde. De repente, à tarde, depois de encher bem a barriga, me senti como um vidro, talvez um copo de vidro. Não sabia bem de que era o meu pensamento. Estava mole, sem vontade, meu corpo e eu juntos formávamos um monte de merda que boiava ao sabor das águas servidas. Aí me lembrei de uma criança, filha da portuguesa que morava ao lado, que me olhou com um jeito engraçado e sorriu, e desejei tanto ser ela, gozar daquela liberdade, pegar aquele pedaço de pau que não entendi bem o que era, que ela não sabia o que era, mas que certamente lhe dizia alguma coisa, machucar o meu joelho do jeito que ela se machucou, comer terra.
Voltei meio cansado da escola, meio cansado do trabalho e meio cansado de mim. Quanta hipocrisia, quanta falsidade, quanta conversa fiada, quantas minhas palavras inúteis, eu um puto dum nonsense, quanta bunda lá na escola, mas até a minha vontade de fuder passou. Ocorreu-me que um cara podia me encostar o cano do revólver no ouvido e me tirar o carro, meu precioso talão do BEG, meus documentos e ainda me dar um tiro na bunda. E eu no hospital. Mas o seguro me dá um carro novo e devo ficar feliz porque ele não me matou. Agora é tratar dos documentos, o que é sempre uma merda! Depois vou pra escola, pro trabalho e tomo cuidado para não roubarem o carro outra vez.
Rio, 24/08/1973
Aluizio Rezende
Voltei meio cansado da escola, meio cansado do trabalho e meio cansado de mim. Quanta hipocrisia, quanta falsidade, quanta conversa fiada, quantas minhas palavras inúteis, eu um puto dum nonsense, quanta bunda lá na escola, mas até a minha vontade de fuder passou. Ocorreu-me que um cara podia me encostar o cano do revólver no ouvido e me tirar o carro, meu precioso talão do BEG, meus documentos e ainda me dar um tiro na bunda. E eu no hospital. Mas o seguro me dá um carro novo e devo ficar feliz porque ele não me matou. Agora é tratar dos documentos, o que é sempre uma merda! Depois vou pra escola, pro trabalho e tomo cuidado para não roubarem o carro outra vez.
Rio, 24/08/1973
Aluizio Rezende
Vida Completa
Interessante a força que a gente faz pra continuar vivendo (macrobiótica, comida natural, só como ervas e sementes, sou vegetariano, etc.), ginástica, pilates, exercícios anaeróbicos, o combate ao sedentarismo, etc. E o conhecimento que temos de nomes que desapareceram tão no início de suas vidas. Tais como Patápio Silva, fluminense de Itaocara, exímio flautista, anterior ao mestre Pixinguinha, desaparecido aos 26 anos numa excursão à Florianópolis; China, o cantor de voz forte dos Oito Batutas, grupo liderado por seu irmão e maior amigo Pixinguinha, aos 37 anos; Noel Rosa, de quem não se precisa dizer muito, devendo ser lembrado apenas de que se trata de “um dos maiores compositores de samba de todos os tempos”, desaparecido aos 27 anos; Castro Alves, um dos nossos pais da poesia, que ninguém vai fazer nada nunca parecido em beleza como “O Navio Negreiro”, falecido aos 24 anos; Joana D’Arc, heroína francesa, figura importante não só na história da França como na do mundo, talvez a mártir maior da intolerância da “Santa” Inquisição, coisa de padres, religiosos, clérigos e papas que nunca tiveram nada a ver com Deus, mas com os seus bens ou valores, de questionável teor espiritual, assassinada com a idade de 19 anos; e muitos outros.
São nomes que desapareceram em tenra idade, mas que continuam mais vivos do que nunca. Conseguiram e conseguem impressionar diferentes e múltiplas gerações, enquanto a nossa longevidade não terá assim tanta chance de impressionar muita gente.
Mas é claro que não devemos nos descuidar do corpo, assim como da mente. Afinal, quem tem..., tem medo. Nem seria justo esperar que nos parecêssemos com esses verdadeiros expoentes da natureza humana que acabamos de citar. Ou ter suas vidas como parâmetros. Temos as nossas individualidades. E podemos ter uma vida que surpreenda alguém perto da gente, sem surpreender o mundo, apesar de ela eventualmente durar bastante. Só que essa vida surpreendente certamente não se calcará apenas na sua duração física ou temporal. É preciso que cometamos alguma coisa, num plano que pouco terá a ver com a extensão da nossa permanência aqui no planeta. Ou seja, a duração da vida não é a garantia de que ela seja completa.
Rio, 02/07/2008
Aluizio Rezende
São nomes que desapareceram em tenra idade, mas que continuam mais vivos do que nunca. Conseguiram e conseguem impressionar diferentes e múltiplas gerações, enquanto a nossa longevidade não terá assim tanta chance de impressionar muita gente.
Mas é claro que não devemos nos descuidar do corpo, assim como da mente. Afinal, quem tem..., tem medo. Nem seria justo esperar que nos parecêssemos com esses verdadeiros expoentes da natureza humana que acabamos de citar. Ou ter suas vidas como parâmetros. Temos as nossas individualidades. E podemos ter uma vida que surpreenda alguém perto da gente, sem surpreender o mundo, apesar de ela eventualmente durar bastante. Só que essa vida surpreendente certamente não se calcará apenas na sua duração física ou temporal. É preciso que cometamos alguma coisa, num plano que pouco terá a ver com a extensão da nossa permanência aqui no planeta. Ou seja, a duração da vida não é a garantia de que ela seja completa.
Rio, 02/07/2008
Aluizio Rezende
segunda-feira, 30 de junho de 2008
a cobra e a lebre
hoje estou um bagaço
estou sentindo um inchaço
nos olhos – que horror!
uma dor de cabeça
e, antes que me esqueça,
já não sinto o ruído
da tua voz no ouvido
me dizendo baixinho
que eu vou melhorar
só pra me agradar
quando sabes que a febre
me escolheu como a lebre
que correu da serpente
que a quis devorar
mas espero que antes
de o dia acordar
eu esteja melhor
pra cair em teus braços
como sempre esperando
que eles cuidem de mim,
não como de alguma lebre
que eu sei que não sou,
pois da cobra não fujo,
se ela quiser assim
Rio, 27/01/2007
Aluízio Rezende
estou sentindo um inchaço
nos olhos – que horror!
uma dor de cabeça
e, antes que me esqueça,
já não sinto o ruído
da tua voz no ouvido
me dizendo baixinho
que eu vou melhorar
só pra me agradar
quando sabes que a febre
me escolheu como a lebre
que correu da serpente
que a quis devorar
mas espero que antes
de o dia acordar
eu esteja melhor
pra cair em teus braços
como sempre esperando
que eles cuidem de mim,
não como de alguma lebre
que eu sei que não sou,
pois da cobra não fujo,
se ela quiser assim
Rio, 27/01/2007
Aluízio Rezende
aleivosia
não preciso do dia de sol
não preciso da linda manhã
não preciso jogar futebol
não preciso do odor da romã
não preciso da ninfa sardenta
cujas coxas desejo e devoro
toda vez que ela vem e alimenta
minha vida depois que eu imploro
não preciso de mais alegria
que me leve um dia a dizer
que já tive tudo o que queria:
a orgia, o amor, o prazer
mas cometo uma aleivosia
ao dizer que não falta você
Maricá, 16/12/2007
Aluízio Rezende
não preciso da linda manhã
não preciso jogar futebol
não preciso do odor da romã
não preciso da ninfa sardenta
cujas coxas desejo e devoro
toda vez que ela vem e alimenta
minha vida depois que eu imploro
não preciso de mais alegria
que me leve um dia a dizer
que já tive tudo o que queria:
a orgia, o amor, o prazer
mas cometo uma aleivosia
ao dizer que não falta você
Maricá, 16/12/2007
Aluízio Rezende
brincando de "amarelinha"
“... para muitos é difícil
abandonar o caminho da
mais abjeta tolerância,
da permissividade,
da perfídia, da devassidão,
da imundície comportamental,
da canalhice duodenal,
da estonteante oxigenação do cérebro
em busca de condutas pueris, servis,
presumivelmente infantis ...”
diante desse discurso
pesado, delimitante,
apesar de circunstante,
que mais parecia um compasso
ao descrever um círculo,
ou com o início
de um discurso profilático
que se ouviria
(a troco Deus bem sabe de quê)
num desses bancos
numa dessa igrejas
do reino de Nosso Senhor,
a menina foi com a amiga
brincar de “amarelinha”
com um monte de quadrados
que haviam traçado no chão
Rio, 28/02/2008
Aluízio Rezende
abandonar o caminho da
mais abjeta tolerância,
da permissividade,
da perfídia, da devassidão,
da imundície comportamental,
da canalhice duodenal,
da estonteante oxigenação do cérebro
em busca de condutas pueris, servis,
presumivelmente infantis ...”
diante desse discurso
pesado, delimitante,
apesar de circunstante,
que mais parecia um compasso
ao descrever um círculo,
ou com o início
de um discurso profilático
que se ouviria
(a troco Deus bem sabe de quê)
num desses bancos
numa dessa igrejas
do reino de Nosso Senhor,
a menina foi com a amiga
brincar de “amarelinha”
com um monte de quadrados
que haviam traçado no chão
Rio, 28/02/2008
Aluízio Rezende
sexta-feira, 27 de junho de 2008
ênclise (en-crise)
acabou-se
como se fosse
um terno usado
um vidro quebrado
leite derramado
pardal no alçapão
perdeu-se
na eterna prisão
do seu pensamento
no doce momento
de alguma ilusão
foi-se
não viu o martelo
pensou que o cutelo
fosse absolvê-lo
tê-lo
foi minha alegria
porque todo dia
havia emoção
perdê-lo
foi minha desgraça
porque tudo passa
mas o amor, não!
Rio, 27/06/2008
Aluízio Rezende
como se fosse
um terno usado
um vidro quebrado
leite derramado
pardal no alçapão
perdeu-se
na eterna prisão
do seu pensamento
no doce momento
de alguma ilusão
foi-se
não viu o martelo
pensou que o cutelo
fosse absolvê-lo
tê-lo
foi minha alegria
porque todo dia
havia emoção
perdê-lo
foi minha desgraça
porque tudo passa
mas o amor, não!
Rio, 27/06/2008
Aluízio Rezende
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