quinta-feira, 1 de abril de 2010

Clarice no colo

o incesto
é funesto
Ernesto me disse
e o que disse
Clarice
sentada no colo,
pregando o botão
que caiu da camisa
surrada do velho...?


Rio, 31/03/2010

quinta-feira, 11 de junho de 2009

um grande amor

um grande amor eu perdi
um grande amor não me veio
um grande amor eu colhi
como se fosse centeio

mas ele não consumi
um grande amor não se come
do grande amor que vivi
só me alimenta o seu nome

um grande amor tudo inflama
a dor, a paz, amargura
mas quando ele nos chama

tudo se torna ternura
e nunca acaba na cama
o sonho de uma aventura


Rio, 11/06/2009
Aluízio Rezende

domingo, 13 de julho de 2008

Carine

Car(i)ne
quase carne
não me oprime
você me exime
dos males da mente
e é como um cine
um outro mundo
pro bem do meu corpo
você é o escopo
do meu planeta
quando se achega
quando me tenta
você, suas tetas
e o seu tesouro
no meio do ouro
das suas pernas
me perco nelas
me perco ali
ou ali me acho
a cara no tacho
com nariz e tudo
enfio tudo
não faço charme
pro teu alcance
tô no teu lance
eu te devoro
eu só imploro
que não me esqueças
mas que adormeças
no meu cafôfo

Car(i)ne
quase carne
o meu alarme
é a tua vinda
é a tua vida
e se não estás
ou se não me chamas
a minha saída
será um drama
insustentável
de se viver

Maricá, 13/07/2008
Aluízio Rezende

frustração

olhei sério
pra mim de manhã
não estava atrás de rugas
ou de saber quem eu era
era só uma paquera
e o espelho, eu sei,
não gostou!


Rio, 10/07/2008
Aluízio Rezende

bakul

atrás do barco azul
a praia deserta fugindo
seguindo o barco azul
as costinhas dos peixes
refletindo
dentro do barco azul
o pescador calado,
a sereia sorrindo
colado ao barco azul
o adesivo com o nome:
bakul, o bêbado de sonhos
por sobre o barco azul
o sol conversando
com as nuvens
por trás do barco azul,
jogado lá na areia,
duas meninas contando
suas conchinhas e sonhos...


Rio, 13/07/2008
Aluízio Rezende

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A V C

eu sei que a ânsia e o medo
me vêm quando acordo bem cedo
por falta daquele chamego
que eu tinha e também do aconchego

que sempre me deu alegria
do início até o fim do dia
o apoio e a segurança
além de uma grande esperança

de tê-la pra sempre comigo
e assim me afastar do castigo
de ter que acordar e não vê-la
e só me restar a estrela

que fosse escutar meu lamento
e ver todo o meu sofrimento
pois sem você falta o sono
e acordo em pleno abandono

bem antes de quando devia
e nem mesmo a Ave-Maria
que rezo pra mim é ajuda
é claro que é um Deus-nos-acuda

estou perto de um A V C
o médico veio dizer
talvez apnéia severa
não sei o que vem ou me espera

você sei que é minha cura
por isso ando à sua procura
talvez você venha com o vento
é esse o meu único alento

eu deixo a janela aberta
e escondo-me sob a coberta
talvez você venha com o sol
e queira trocar o lençol

e toda a roupa de cama
quem sabe se ainda me ama
quem sabe se ainda me quer
você certamente é a mulher

que nunca devia ter ido
me encontro assustado e perdido
porém jamais vou lhe dizer
que devo tudo isso A VC

Rio, 08/11/2007
Aluízio Rezende

Dia de Concreto e de Borracha

Senti uma dor de barriga desgraçada. Estava no carro, nervoso, queria chegar logo onde tinha que chegar, mas não sabia aonde. De repente, à tarde, depois de encher bem a barriga, me senti como um vidro, talvez um copo de vidro. Não sabia bem de que era o meu pensamento. Estava mole, sem vontade, meu corpo e eu juntos formávamos um monte de merda que boiava ao sabor das águas servidas. Aí me lembrei de uma criança, filha da portuguesa que morava ao lado, que me olhou com um jeito engraçado e sorriu, e desejei tanto ser ela, gozar daquela liberdade, pegar aquele pedaço de pau que não entendi bem o que era, que ela não sabia o que era, mas que certamente lhe dizia alguma coisa, machucar o meu joelho do jeito que ela se machucou, comer terra.
Voltei meio cansado da escola, meio cansado do trabalho e meio cansado de mim. Quanta hipocrisia, quanta falsidade, quanta conversa fiada, quantas minhas palavras inúteis, eu um puto dum nonsense, quanta bunda lá na escola, mas até a minha vontade de fuder passou. Ocorreu-me que um cara podia me encostar o cano do revólver no ouvido e me tirar o carro, meu precioso talão do BEG, meus documentos e ainda me dar um tiro na bunda. E eu no hospital. Mas o seguro me dá um carro novo e devo ficar feliz porque ele não me matou. Agora é tratar dos documentos, o que é sempre uma merda! Depois vou pra escola, pro trabalho e tomo cuidado para não roubarem o carro outra vez.


Rio, 24/08/1973
Aluizio Rezende