segunda-feira, 30 de junho de 2008

a cobra e a lebre

hoje estou um bagaço
estou sentindo um inchaço
nos olhos – que horror!
uma dor de cabeça
e, antes que me esqueça,
já não sinto o ruído
da tua voz no ouvido
me dizendo baixinho
que eu vou melhorar
só pra me agradar
quando sabes que a febre
me escolheu como a lebre
que correu da serpente
que a quis devorar

mas espero que antes
de o dia acordar
eu esteja melhor
pra cair em teus braços
como sempre esperando
que eles cuidem de mim,
não como de alguma lebre
que eu sei que não sou,
pois da cobra não fujo,
se ela quiser assim


Rio, 27/01/2007
Aluízio Rezende

aleivosia

não preciso do dia de sol
não preciso da linda manhã
não preciso jogar futebol
não preciso do odor da romã

não preciso da ninfa sardenta
cujas coxas desejo e devoro
toda vez que ela vem e alimenta
minha vida depois que eu imploro

não preciso de mais alegria
que me leve um dia a dizer
que já tive tudo o que queria:

a orgia, o amor, o prazer
mas cometo uma aleivosia
ao dizer que não falta você


Maricá, 16/12/2007
Aluízio Rezende

brincando de "amarelinha"

“... para muitos é difícil
abandonar o caminho da
mais abjeta tolerância,
da permissividade,
da perfídia, da devassidão,
da imundície comportamental,
da canalhice duodenal,
da estonteante oxigenação do cérebro
em busca de condutas pueris, servis,
presumivelmente infantis ...”

diante desse discurso
pesado, delimitante,
apesar de circunstante,
que mais parecia um compasso
ao descrever um círculo,
ou com o início
de um discurso profilático
que se ouviria
(a troco Deus bem sabe de quê)
num desses bancos
numa dessa igrejas
do reino de Nosso Senhor,

a menina foi com a amiga
brincar de “amarelinha”
com um monte de quadrados
que haviam traçado no chão


Rio, 28/02/2008
Aluízio Rezende

sexta-feira, 27 de junho de 2008

ênclise (en-crise)

acabou-se
como se fosse
um terno usado
um vidro quebrado
leite derramado
pardal no alçapão

perdeu-se
na eterna prisão
do seu pensamento
no doce momento
de alguma ilusão

foi-se
não viu o martelo
pensou que o cutelo
fosse absolvê-lo

tê-lo
foi minha alegria
porque todo dia
havia emoção

perdê-lo
foi minha desgraça
porque tudo passa
mas o amor, não!


Rio, 27/06/2008
Aluízio Rezende